... E O HOMEM CRIOU DEUS!

Um dia a paz reinava no mundo e tudo era belo e silencioso.



Deus criou o homem e ficou feliz.

Ele com a sua sabedoria, encantou as florestas com os pássaros para entoar nossos ouvidos com suas melodias; vislumbrou as montanhas com rios e cachoeiras para encantar nossos olhos; acendeu o sol com a sua luz de energia para regenerar a vida; soprou a brisa para acalentar a luz do sol. E a natureza respondeu produzindo alimentos.




E o homem criou Deus.

Um Deus que avança na ambição, que recolhe dinheiro em sacolas, que desmata, queima, aprisiona.

Um Deus que grita, estanca, polui, que mata.



Onde está o verdadeiro Deus?

O Deus que me deixa pegar frutas no cerrado, observar os pássaros da florestas, os animais nos pampas.
Comer jatobá, macaúba, mangaba, barú, ananais, pequi, araticum e gabiroba.

Saborear amoras colhidas na ribanceira, os veludos e azedinhas nos grotões da mantiqueira.



Eu quero o meu Deus de volta. Ele sim é capaz de transformar a sua propria criação para inverter o invertido, e fazer para mim um mundo mais divertido. Com pessoas que sorri, que conta história, que pula e se emociona.



Eu quero de volta o meu Deus...


Paulo Freitas/2010





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sábado, 8 de janeiro de 2011

CACHOEIRAS EM SÃO LUIZ DO PARAITINGA


- Neste final de ano eu quero fazer um passeio diferente. – dizia a minha esposa.
- Eu quero um lugar que tenha cachoeira e tranqüilidade. Ou então vamos para a praia. Passeio na praia estava descartado, pois todos nós sabemos que é a maior roubada descer ao litoral para o réveillon. É o caos: falta água, sobra chuva e muitos estresses no caminho de volta.
- Porque você não vai para Conceição do Ibitipoca? – sugeriu um amigo professor.
- Lá tem um Parque com muitas cachoeiras e é muito gostoso. Tem muitas pousadas e chalés. Fica em Minas Gerais perto de Juiz de Fora. Eu já fui várias vezes e gostei muito. São só 510 quilômetros até lá. - Só? Isto quer dizer umas cinco horas ou mais de viagem. Não sei não. Tudo bem. Levei a sugestão para casa e mostrei para a família.
Não aprovaram. Entrei na internet e digitei no Google:“cachoeiras SP”. O primeiro link me chamou a atenção: trilha das 7 cachoeiras: abri e verifiquei que se tratava de uma pousada em São Luiz do Paraitinga que proporciona passeios em trilhas.
 - São Luiz do Paraitinga? Não é aquela cidade do vale do Paraíba que ficou famosa no começo de 2010, quando sua igreja central foi filmada vindo abaixo depois de uma grande cheia do Rio Paraitinga, e cobriu todo o Centro histórico da cidade?
- Isso mesmo. Vai ser interessante conhecer. Depois de navegar um pouco pelas paisagens e pousadas da região, o nosso interesse aumentou e levamos a idéia já bem amadurecida para a família.
Estava quase terminando o ano velho quando decidimos reservar espaço e ligar nas pousadas. Foi difícil encontrar disponibilidade. Mas a sorte estava do nosso lado e uma alma boa nos respondeu positivamente. Fechei na hora sem ao menos saber direito o preço.
A Pousada Recanto Fazendinha foi construída com materiais totalmente garimpado em demolições, o Rosano e a Maria Inês, construíram um recanto de amigos estilo fazenda. As portas internas e externas dos quartos não têm fechaduras, demonstrando a confiança na escolha de cada convidado, eles são fechados somente com as primitivas tramelas. Cada espaço da pousada reflete o carinho na escolha da decoração, dos móveis e da iluminação. O Bar é do sistema self-service, você toma a cerveja, o vinho ou drink e marca na comanda.
O Centro histórico da cidade é um show de paisagem. Cada construção é uma obra de arte, cada pessoa um personagem de um teatro que muda de cenário a cada esquina que viramos. Uma ponte em arco, um luminária com lampião da década de 30, um chafariz de metal fundido de 1800 e toda a arquitetura tombada, com as peculiaridades de um tempo que ficou na história. Paredes em taipas de pilão, portais em relevo e cores deslumbrantes. Algumas casas em reforma mostravam as paredes desnudas como feridas a serem curadas. Cada comerciante expondo suas fachadas em cores vivas, parecendo um grande parque feito com casas de bonecas Acabamos por jantar num bar e restaurante típico, que servia pratos feitos, onde o garçom é o próprio proprietário. As paisagens naturais da região também são deslumbrantes. O passeio das cachoeiras será lembrado pra sempre por todos os trilheiros que nos acompanharam na aventura. As quedas d’água formam um grande véu e cada um deles desenha um esplendor diferenciado, fazendo-nos encantar a cada metro percorrido por entre as árvores e cursos d’água. O frescor da trilha e a umidade do ar, fez derramar sobre nós uma brisa fina em todo percurso, fazendo com que o nosso passeio se tornasse particular e único.
A falta de equipamentos e a inexperiência dos participantes fizeram cada transposição uma aventura peculiar. O nosso guia, com seu sotaque caipira, trouxe-nos uma alegria contagiante, contando histórias e lendas de Monteiro Lobato, como do Saci-Pererê e da mula–sem-cabeça, terminado com uma surpresa na casa da Dona Dolores, servindo um lanche natural para restabelecer as forças para o retorno.
A chuva aumentou de intensidade e a volta foi mais comedida e com uma maior preocupação com a segurança. Chegamos em paz, muito bem recepcionados e muito molhados para a Ceia das quatro horas. Galinha caipira ao fogão de lenha, arroz integral socado no pilão, feijão rosinha, salada de palmito entre outras opções, nos fizeram permanecer à mesa por mais tempo, terminando com um gostoso doce caseiro.
A chuva que chove em demasiado em São Luiz do Paraitinga, é a mesma chuva que devia chover nas grandes plantações de milho e soja que se perdem nos descampados do interior. Sem as matas preservadas, as chuvas se concentram em pequenos espaços e faz transbordar os rios e ribeirões trazendo inundações e castigos aos ribeirinhos.
A gente só descobre a destruição da natureza de verdade, feita pelo homem, em momentos como este, quando vimos cantinhos preservados na Mata Atlântica onde podemos ainda conhecer espécies da flora e da fauna que temos visto somente através de imagens reproduzidas nos livros e clipes feitos por profissionais da mídia. As plantas, seres vivos assim como os animais e os humanos, têm direito à vida.

A destruição da natureza é a destruição da vida. Se não houver uma conscientização urgente das novas gerações para preservar o que ainda existe, seremos condenados pelo nosso planeta a nos esconder de catástrofes cada vez mais intensas e sobreviver de migalhas deixadas nos caminhos dos ventos, dos mares e tempestades.

Paulo Carvalho de Freitas
08/01/2011

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ENCONTRO DE GERAÇÕES

Um vazio de silencio ecoa nos ruídos dos palavreados e a voz miúda do anfitrião cambia simples e tímida na intenção de agradecer tamanha homenagem ora prestada ao sexagésimo aniversário de vivencia. Os olhos úmidos pela sinceridade das palavras causaram emoção nos corações dos fraternos presentes que num desabafo replicou uma grande salva de palmas. O segundo de seis filhos de um casal de sertanejos, ele ainda traz nas palavras os sotaques e trejeitos do jeitão de caipira que muito o orgulha. Amante da música sertaneja raiz e das danças típicas como o catira e a chula, busca a alegria de viver em toadas que o seguiram pela infância afora e o conduziram em caminhos de caráter e retidão. Lembra-se com muito orgulho, das responsabilidades de trabalho designadas pelo pai na lida do café e das hortaliças que fora os dois grandes esteios da manutenção e da fartura da família. Recorda-se com tenacidade de grande auto-estima dos momentos em que, na ausência do pai, tomara atitudes de liderança na posição de filho mais velho, como no momento de mudança radical dos rumos da família, quando ao término do contrato da cultura do café, foram obrigados a tomar o caminho da cidade para buscar a sobrevivência em tempos de êxodo rural. Com dezenove anos incompletos, formação escolar primária e uma vivencia apenas rural, foi titulado pelo pai como ator principal de teatro de ações que começara na entrega do sitio, a venda dos animais e até a viagem levando a família em definitivo para morar em Campinas. Moço de linhagem simples e cultura sem privilégios aprendeu com o pai que o trabalho é tudo para o homem, que o caráter, o respeito e a responsabilidade permeia o palco de qualquer relação, e que o pódio de cada conquista depende da determinação e da confiança com que se encara o jogo. No acúmulo de troféus e vitórias, enumera-se grandes eventos importantes como a escolha da grande companheira que trilhou e direcionou os caminhos da vida a dois; o nascimento das duas filhas que enfeitaram, movimentaram e deram sobrevida ao casamento dos dois que fora traçado e escrito nas estrelas. Outros momentos a enumerar foi o nascimento dos netos, que entre os reveses, encontros e desencontros, foram recebidos dentro de lares cheios de amor e harmonia e com o compartilhamento e humildade conquistaram a educação e a disciplina que precede o exemplo e o modelo dos pais. Campinas foi o palco deste grande encontro. Presentes a matriarca, todos os irmãos, filhas, genros, netos, sobrinhos, cunhados, primos e amigos. Este reencontro de família foi infinitamente lindo e marcante para todos, pois lembra momentos de alegria quando ainda tinha viva a presença do pai entre todos. Lembra também o desencontro, quando foi preciso deixar os fraternos em Campinas e buscar em Fernandópolis a independência financeira. A grande distancia da família raiz por quase vinte anos veiculou a necessidade de atitudes de vida que engrandeceram as experiências, elevaram as motivações e criaram novas histórias, pitorescas ou não, mas que deverão ser contadas nas prosas do cotidiano e nos teatros familiares onde as platéias com certeza serão de netos e bisnetos e estarão atentos aos detalhes das lembranças e aos cabelos brancos que hão de povoar a sua cabeça, o disco rígido armazenador de memórias, onde hoje com certeza ainda sobram espaços e muitos gigabytes para preencher.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O VEGETAL E A VIDA

O nosso cérebro, comandante geral do nosso corpo, tem uma memória complexa que guarda informações de todas as funções do nosso organismo, tanto digestivo, circulatório, respiratório, nervoso, muscular, urinário, ósseo e reprodutor. O sistema nervoso é mais complexo de todos, pois ele em parceria com o cérebro, segue desencadeando inúmeras funções. Veja o caso das drogas e dos vícios, por exemplo, o dependente fica desesperado e faz coisas sem noção como roubar, matar e outros enguiços ilegais, e se tentar deixar o vício, o corpo não suporta a síndrome da abstinência entrando em estado de pânico. Mas tem também o sistema endócrino, responsável pela produção de hormônios, que com uma precisão medonha, informa o sistema nervoso das coisas que acontecem por fora do corpo. Nesta equipe de órgãos trabalham o pâncreas, a hipófise, o hipotálamo, a pineal, a tiróide, a medula óssea e outros tantos que juntos determinam se o dono do corpo cuida bem dele ou não. Eu passei a vida toda achando que cuidar bem do corpo era tomar banho diariamente, comer bem e bastante, repousar, escovar os dentes e cortar as unhas. Esqueci-me, por exemplo, de fazer atividades físicas com regularidade, escolher bem os alimentos consumidos e respeitar os excessos não permitidos. Hoje, depois de uma cirurgia radical e ter passado quarenta dias sem alimentação sólida, descobri que o meu pâncreas não está mais em harmonia com o sistema nervoso e não está produzindo as insulinas suficientes para o bom desempenho do sistema digestivo, o que é necessário para produção das energias vitais do meu corpo. E isto foi de repente. Comecei a perder peso muito rapidamente e fiquei preocupado. Procurei um especialista no assunto, o endocrinologista, que me orientou: - Dieta radical, meu companheiro! Ou você controla a sua alimentação de carboidratos ou vai sofrer conseqüências terríveis que o diabetes provoca no seu sistema vital. Uma das conseqüências mais comum é a cegueira. - Deus me livre, pensei. – Quero enxergar a vida em cores e não a escuridão. O médico informou-me de um site na internet onde existe um manual de alimentação e uma relação de carboidratos que compõem cada alimento. Na linguagem técnica, carboidratos quer dizer açúcar e este é o vilão da nossa vida. A dieta que o médico me passou nada mais é do que a alimentação saudável sem muitos açúcares, que todos deveriam seguir desde a infância. Olhei cada alimento, de A a Z, e descobri que somente os alimentos naturais não são prejudiciais à saúde. As carnes, o peixe e o leite e seus derivados, se consumidos com devidos critérios, também devem fazer parte da alimentação balanceada. Nesta lista de alimentos sem carboidratos, glicose ou sacarose, descobri os alimentos amigos, os nossos super heróis: eles mesmos, os vegetais. Eles são necessários para a vida e devem ser nossos companheiros. Alem de não conter carboidratos em excesso, também possuem fibras que regulam o bom desempenho da digestão. Eu ouvia falar das pessoas que optavam pela alimentação somente de vegetais e ficava transtornado. Se o homem é considerado carnívoro, porque estas pessoas inventam esta história de alimentar-se diferentemente do padrão? E o churrasquinho de fim-de-semana, como é que fica? Em minha opinião, não é necessário ser vegetariano nem naturalista para viver bem, é necessário sim escolher bem os alimentos e praticar atividades físicas. Você pode participar de uma churrasqueada e controlar a sua gula ingerindo juntamente com as carnes vermelhas, algumas carnes brancas, verduras e frutas. Tenho um amigo de infância que teve uma vida sedentária trabalhando como motorista muitos anos e ficou diabético ainda muito novo (cerca de 35 anos), mas não teve nenhuma atitude alimentar ou física e com quarenta anos já tomava insulina. Hoje, alem da insulina, faz hemodiálise duas vezes por semana. Aprendi um pouco tarde, mas ainda é tempo de controle, antes de ter que usar as insulinas sintéticas, quero controlar o diabetes com boa alimentação e sempre e dentro das possibilidades físicas, praticar algum esporte, pois, para que não terminemos nossa vida vegetando, devemos ser amigos do vegetal, porque são eles que vão nos proporcionar longevidade e saúde. Paulo Freitas- Nov/2010.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

INVERSÃO DE VALORES

Uma manchete do jornal nos chama a atenção:” Um carro-bomba explodiu em Jerusalém”. “Com certeza foram grupos militantes palestinos” afirma o correspondente do jornal. Será a mesma Jerusalém da bíblia? Serão os mesmos palestinos? O que faz com estes povos se enfrentam tanto? O mundo é movido por interesses. A quem interessa esta guerra? Aos Estados Unidos? É certo que muitos tipos de armas estão sendo testados nos campos de batalha de Israel. Muitos mísseis, muitos tanques. O povo é usado como massa de manobra.Aqui no Brasil também vivemos uma guerra. De um lado bandidos organizados com armas sofisticadas e de outro a polícia sempre mal avisada, surpreendida e mal aparelhada (mal preparada). Enquanto os traficantes de armas e drogas usam micro-câmeras, Internet, tecnologia de última geração, os policiais brasileiros continuam a usar o revólver calibre 38 (ou de 1938) como arma de mão. A quem interessa esta guerra? Porque não se prendem os cabeças? Será que não se sabe quem são? Porque será que a CPI do Narcotráfico sempre esbarra em políticos, empresários, religiosos e poderosos que nunca vão para a cadeia? Os valores estão se invertendo. Os bandidos estão controlando a polícia, os bairros, as cidades. Daqui a pouco, muito pouco, os bandidos irão controlar as prefeituras, o estado, o país. Que direito é este que o bandido tem de usar telefones celulares nas celas, televisor a cores, cardápio nutricional, serviço de saúde especial e ar condicionado? Porque nós, cidadãos de bem não o temos. Nós também temos direitos de ter direitos.Quem mantém estas ONG’s ( Organizações Não Governamentais) que defendem os direitos humanos dos bandidos? Teremos também uma ORGANIZAÇÃO GOVERNAMENTAL que defenda nossos direitos?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A BOMBA DE 70

A nossa cachorrinha ficou proibida de entrar para dentro de casa. É uma norma que é obedecida quase sempre. A exceção é quando, por motivo de jogos de futebol ou outro evento de comemoração, soltam fogos de artifício. Dá muito dó de ver o desespero do animal a procurar um lugar seguro para se esconder. Ela enfrenta toda a autoridade da casa, invade a sala e o quarto para se enfiar debaixo da cama, e de lá só sai quando percebe que o perigo já passou. Ou então para buscar outro esconderijo. Aí sim, somente nesta condição fica liberada. Eu não sou cachorro não, mas todas as vezes que escuto barulho de rojão fico também muito assustado. O meu coração acelera parecendo um martelo pneumático, daqueles que quebram os concretos por aí. Lá em casa nunca entrou nenhum tipo de bomba ou rojão. Os meus filhos, quando eram pequenos, pediam pra comprar bombas e eu logo respondia: - Se quiserem, eu compro traque, mais do que isso eu não compro,não. O meu sogro compra pra soltar lá no sítio dele. Diz que é para espantar os bichos que rondam por lá e dão prejuízos: as lontras que roubam os peixes do açude, os gambás que mexem com as galinhas e outros animais silvestres noturnos que insistem em buscar alimentos nas criações do sítio. Mas em tempos de comemoração ele também solta rojões. No dia de Nossa Senhora, 12 de outubro, ele sempre queima uma ou duas caixas de rojões de três tiros para comemorar. Se ele fica feliz por alguma vitória alcançada ele solta as bombas e grita viva. Eu já fico longe destas atitudes. Sempre acho que vai acontecer uma tragédia. Igual àquela que aconteceu quando eu era menino com o Mané Vilela, um colega de escola e vizinho na minha cidade natal, no interior do estado de São Paulo. Era mês de junho, naquela época ninguém tinha muito controle sobre as vendas de fogos de artifício como hoje. Qualquer um podia comprar bombinhas no armazém do Seu Osvaldo Calgari. Lá tinha desde traque até bomba de 100, que eram aquelas de arrebentar latas de vinte litros com cinco tijolos em cima, um perigo. Os meninos pediam dinheiro pra mãe pra poder comprar balas e ia ajuntando até ter o bastante para compras as bombas. Naquele dia o Mané Vilela, filho do Seu Miguel, que era nosso vizinho de sítio, tinha comprado algumas bombas. A gente estudava de manhã: entrava às sete horas e saía às onze, que era tempo de ir pra casa e ainda pegar no batente no período da tarde. O Mané fez muita propaganda das bombas que comprou, por isso a escola toda estava sabendo que ele iria fazer um barulho enorme com elas. Tinha uma bomba de 70 e outras tantas de 50, estava tudo preparado para soltar logo na saída do portão da escola. Os alunos foram saindo e se aglomerando na rua, aguardando o show prometido. O Mané Vilela foi descendo a escada que dava acesso ao portão e verificou no embornal pendurado no pescoço se as bombas estavam lá. No bolso do calção, uma caixa de fósforos que trouxera de casa balançava no toque firme ao chão dos pés calçados com o “sete- vidas”, um calçado tradicional da época. Mané Vilela parou no centro da aglomeração, enfiou a mão dentro do embornal e escolheu uma bomba de 50, puxou a caixa de fósforo do bolso e preparou para acender o estopim. Todos se afastaram para dar espaço para a explosão. O Pedro, filho do Tatinha, um menino da quarta série, trouxe uma lata de massa de tomate, que era para cobrir a bomba para que ela tivesse mais impacto. - Sai de perto que eu vou soltar. – falou bem alto o Mané. – Sai todo mundo de perto. – repetiu. Riscou a bomba na lateral da caixa de fósforo e jogou. A bomba caiu no chão e o Pedro saiu correndo em direção à ela e cobriu-a com a lata de massa de tomate, cobriu-a e voltou correndo. - Bummm!. – a latinha subiu por mais de dez metros de altura e caiu despedaçada no chão. Todos aplaudiram. - Agora eu vou soltar a de 70. – comunicou. – Sai todo mundo de perto. Pegou a bomba, a caixa de fósforo e riscou. Quando ele jogou a bomba, pareceu que não tinha acendido o pavio. Esperou um pouco e nada aconteceu. - Falhou. - disse . Caminhou correndo em direção à bomba para riscá-la novamente, apanhou- a pelo corpo de pólvora, posicionou para acendê-la, mas a bomba já estava acesa. - Bumm!! Uma grande explosão se ouviu, um grito de sangue e de dor marcou aquele momento. Dois dedos da mão direita do Mané Vilela foram decepados e um fluxo de sangue jorrou no chão. A sua barriga também ficou um pouco queimada, mas a camisa o protegeu. - Socorro! Ajudem! - A pane foi geral. As crianças todas correram em direção às suas casas, assustadas com aquela tragédia Muitas pessoas adultas vieram correndo e levaram o Mané para a farmácia. Depois é que ficamos sabendo que o Mané perdeu também um pouco da visão por causa daquele acidente. Todos foram para casa cabisbaixos. O resto do dia foi de tristeza. A história serviu de exemplo para os pais ficarem mais atentos com as crianças na hora de autorizarem o uso de fogos. A escola proibiu as crianças de soltarem bombas no portão da escola, mas na mão do Mané Vilela ficaram faltando dois dedos. Depois daquela tragédia, eu nunca mais quis participar de nenhum evento que fossem usados fogos de artifício, não por medo, mas sim por respeito ao poder da pólvora, que é uma das substancias principais que se junta para construir armas de destruição. Paulo Freitas – Set/2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

BIENAL DE EMOÇÕES

A van estava parada defronte ao Largo do Pará em Campinas. Todos estavam ansiosos para tomar seus lugares para visitar no Parque Anhembi a XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Pessoas estranhas se entreolhavam a buscar no outro um particular ou um motivo para iniciar uma conversa. O condutor seguiu em movimento cumprindo o seu papel. A viagem foi curta, mas com tempo suficiente para cumprir uma relação de amizade que se tornou forte na medida em que os objetivos em comum foram se tornando concretos em frases rápidas de trocas de endereços eletrônicos, informações, poesias, livros e sonhos. O saguão do parque mostrava painéis com nomes de grandes editoras, escritores famosos, imortais e grande quantidade de títulos desfilavam aos nossos olhos. A cada frase escrita nos levava a um passeio diferente no tempo e no espaço: contos, poesias, receitas culinárias, auto-ajuda, dietas, buscas, encontros, como fazer isto e aquilo. O Sarau da Silvia, para o qual estávamos convidados começaria às oito horas da noite. Estávamos com tempo disponível para vasculhar o espaço todo. Um grande estande nos chamou a atenção pela sua estrutura e pelo nome que ostentava em sua frente: MELHORAMENTOS. Logo que entramos, vimos um senhor que pelos seus cabelos brancos, aparentava uns oitenta anos, a remexer nas prateleiras de livros de receitas na sessão de culinária. Aquele homem nos chamou a atenção: além da sua idade avançada, mas também por estar portando uma tala de gesso no antebraço esquerdo o que imobilizara este membro através de uma tipóia presa ao pescoço. Não resistimos e fomos logo fazendo um contato para iniciar uma conversa. Ele nos disse que estava olhando os livros de receitas, mas que estes livros tinham muitos ingredientes sofisticados. Disse ter trabalhado num restaurante quando ainda era moço e que naquele tempo se fazia os pratos com temperos simples comprados no mercado municipal. Hoje são tantos nomes estranhos que (...). Agora ele estava aposentado; há dez anos ensinara dança num clube de São Paulo do qual se orgulha muito e até hoje dança nos bailões da terceira idade. Falou-nos do seu tempo de menino, da liberdade de brinquedos, do respeito das pessoas e das diferenças sociais. Relembrou as festas da juventude, de suas namoradas e da sua virilidade; dos passeios com amigos e das notas na escola. Criticou os governantes, a política e as guerras da infância. Relatou com muita saudade de sua amada e companheira, mostrou-nos como foi sublime ter sua missão cumprida. A conversa rendeu quase uma hora de histórias. Talvez um livro completo. No final das contas demos um grande abraço naquele homem desconhecido e o beijamos em sua face áspera com a barba por fazer, tiramos uma fotografia e demos a ele um livro de nossa autoria que o deixou com os olhos umedecidos e a voz embargada de alegria e agradecimento. Em toda Bienal encontramos livros de todos os tipos, escritos em diversas línguas, diversas formas e tamanhos. Mas ninguém, temos certeza, ninguém encontrou o livro mais sofisticado que nós. Encontramos um livro vivo, que trazia em sua capa o pó das viagens de vida, e nas páginas amareladas as orelhas causadas pelas repetidas vezes que as folhearam em busca de ensinamentos e experiências. Um livro que não precisava de olhos para ver, nem braços para segurar, apenas ouvidos para ouvir e muitas emoções para sentir. Trouxemos conosco algumas páginas desse livro em nosso pensamento e que serão lidas todas as vezes que encontrarmos alguém que queira ouvir esta história.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A JABUTICABEIRA

Um dia eu plantei uma jabuticabeira no meu quintal e quando ela soltou as primeiras folhinhas sob os meus cuidados, pensei: - Puxa, vai demorar sete anos para que eu possa colher algumas frutinhas dessa árvore... E a árvore cresceu um pouco. No ano seguinte já soltava os primeiros galhos e eu já aproveitava de sua sombra. Todos os dias eu a via com folhinhas novas, a refrescava com água fresca e a saudava com palavras de ordem: - Cresça logo, seja forte! Meus filhos vendo-a forte e vigorosa começaram a cuidar dela também. E ela cresceu e tantas coisas aconteceram. Depois de um trágico momento de minha vida e passar por uma quarentena no hospital, voltei para casa deprimido e achei que não podia mais cuidar da minha jabuticabeira, mas ela respondeu com uma nuvem branca de flores perfumadas e me saudou com uma palavra de ordem: - Seja Forte! Você um dia ainda vai subir nos meus galhos para colher os meus frutos. E assim foi...Ontem eu amarrei a rede em um de seus galhos, aproveitando de sua sombra, fechei os olhos preguiçosamente e pensei: - Um dia eu te plantei pequenina e afaguei suas pequenas folhas e hoje você me sustenta em teus braços. Desculpe por não ter braços tão grandes para acariciar toda a sua grandeza. Só posso dizer: - Muito obrigado... E ela respondeu com um silencio misterioso de paz, e eu adormeci sentindo o afago do frescor do balançar de suas folhas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

UMA SABIÁ FEZ NINHO NO MEU QUINTAL

Acordei às seis horas da manhã desta terça-feira, e, com minha cabeça ainda no conforto do meu travesseiro de “penas de ganso”, ouvi ao longe, o canto de uma sabiá. - Parece que estamos na roça! – Pensei. Fazendo a higiene matinal, ainda conseguia ouvir aquele canto característico, cada vez mais perto e mais longo. - Ele deve estar procurando uma companheira. – Pensei. Imaginei a solidão de um passarinho a cantar, procurando alguém que lhe oferecesse um pouco de carinho e calor nas noites frias deste inverno. Talvez estivesse cantando a tristeza de uma viuvez precoce, provocada por um desnaturado inimigo da natureza, que para sua alegria pessoal e egoísta, houvesse capturado a sua companheira. Continuei a ouvir. Da janela do quarto entreaberta, pude perceber que aquele canto melancólico melodioso vinha talvez do nosso pé de ipê. Fiquei atento para observar a ave que tão raramente víamos em nosso quintal urbano, mas não consegui, apenas continuei a ouvir o seu canto, enquanto preparava o café da manhã antes de seguir para o trabalho cotidiano. As melodias dobravam em notas singelas de chamado, mas nenhuma nota se ouvia em resposta. Depois do trabalho ao entardecer, ainda ouvi o triste cantar daquele pássaro e então pude observá-lo rondando o meu quintal com seu bico a gorjear frases irreconhecíveis ao nosso ouvido, porém com notas muito mais intensas, mostrando a sua insistência na busca de sua parceira. Na quarta-feira de manhã, mobilizamos toda a família para ficarmos atentos ao pássaro. Não foi difícil encontrá-lo pousado na jaboticabeira a gorjear. A surpresa porém foi muito grande, quando lá estavam, não apenas uma ave cantando feliz, mas outras três companheiras já buscavam a solidariedade daquela alma. Ficamos muito mais felizes ainda, quando percebemos que os dois casais, sim, os dois casais, procuravam insistentemente sobre as folhas da palmeira imperial, um lugarzinho para construírem seus o ninhos de amor. Com a câmera em punho, rastreamos o seus movimentos e com ela capturamos sua insistência em mostrar para sua nova companheira o lugar que escolhera para viverem felizes para sempre. Como nós, seres humanos, este sabiá busca a felicidade. Mas para nós há um sério agravante: não sabemos cantar a melodia certa para o chamamento da cara metade. Quantas pessoas saem à noite para as baladas à procura de um companheiro ou companheira, que as façam felizes de verdade. Não sabem cantar a melodia do encontro e se sujeitam a cantar qualquer música atraindo indesejáveis companhias. Quantas pessoas infelizes choram sua tristeza, por trás de uma dezena de beijos equivocados, de uma noite banhada de melodias alcoólicas? Quantas pessoas fazem chorar quando tentam cantar, sem saberem direito o canto e se perdem precocemente no óbito de acidente ou drogas? Quantas almas são perdidas. Quantas vidas... Tem uma família de sabiá na minha casa. Eles construíram seus ninhos nas árvores do meu quintal. (Fotos: Maria Beatriz)